Capítulo 2
Lys Cavalcante não dormiu bem.
Não por causa do fuso.
Nem do jantar.
Mas pela sensação incômoda de estar sendo observada - algo que ela detestava.
Na manhã seguinte, desceu cedo. Óculos escuros, postura firme, passos objetivos. Quando chegou ao elevador, apertou o botão com mais força do que o necessário.
As portas se abriram.
Erick Montreal estava lá dentro.
Sozinho.
Ela travou por meio segundo. O suficiente para ele perceber.
O suficiente para confirmar que não fora imaginação.
- Bom dia - ele disse, neutro, dando um passo para o lado. - Pode entrar. Ou espero o próximo.
Ela entrou.
As portas se fecharam com um som suave demais para o silêncio que se instalou.
- Não se preocupe - Lys disse, sem olhá-lo. - Não vou acusar você de me seguir... hoje.
O canto da boca dele se moveu, quase um sorriso.
- Agradeço o voto de confiança.
- Não é confiança - ela corrigiu. - É observação.
O elevador começou a descer.
- Você saiu cedo ontem - ele comentou.
- Eu sempre saio quando percebo expectativas não combinadas.
- E eu fiquei - ele respondeu. - Tentando entender por quê.
Ela o encarou pela primeira vez naquela manhã. Os olhos azuis estavam atentos, frios, mas curiosos apesar de si.
- E chegou a alguma conclusão?
- Que você não gosta de atalhos.
- Que você está acostumado a oferecê-los.
Ele aceitou o golpe com tranquilidade.
- Verdade - disse. - Mas também sei respeitar quando alguém diz não.
- Muitos homens dizem isso - Lys respondeu. - Poucos agem assim.
O elevador parou em um andar intermediário. As portas se abriram. Ninguém entrou. Fecharam-se de novo.
O espaço pareceu menor.
- A bebida que você recusou - Erick disse - não era um convite.
- Sempre é - ela rebateu. - Gentilezas raramente são neutras.
- Então considere isso - ele falou, sério -: eu não espero nada de você. Nem conversa. Nem simpatia.
Ela cruzou os braços.
- E por que está falando comigo, então?
- Porque seria covardia fingir que não notei você.
- Notar não dá direito a aproximação.
- Concordo - ele respondeu. - Por isso estou pedindo permissão agora.
O elevador desacelerou.
- Permissão para quê?
- Para tomar um café. Em público. Sem cortesia. Sem expectativa.
As portas se abriram no térreo.
Lys não respondeu de imediato. Saiu do elevador, caminhou alguns passos. Erick não a seguiu.
Isso contou pontos.
Ela parou. Virou-se.
- Café não é um sim - disse.
- Eu sei - ele respondeu. - É só café.
Ela o observou por alguns segundos. Não o homem bonito. Não o CEO.
O homem que soube parar.
- Trinta minutos - disse ela. - Depois disso, cada um segue seu caminho.
Erick assentiu.
- Combinado.
Enquanto caminhavam em direções opostas pelo lobby, ambos sabiam:
aquilo não era um encontro.
Era um teste.
E nenhum dos dois tinha certeza de quem estava avaliando quem.
Capítulo 3
Lys Cavalcante chegou ao café exatamente no horário combinado.
Pontualidade era uma forma silenciosa de controle.
Com seus 24 anos, ela já aprendera a não oferecer mais do que pretendia sustentar. A postura firme compensava a estatura delicada de 1,59, e ainda assim ninguém duvidava da segurança com que ocupava o espaço.
Erick Montreal a aguardava em uma mesa lateral.
Aos 39 anos, 1,80 de altura, presença marcante mesmo sentado, ele não se levantou de imediato - não por descaso, mas para não invadir. Observou quando ela se aproximou, avaliando cada gesto.
- Trinta minutos - ela lembrou, sentando-se.
- Estou contando - ele respondeu, olhando discretamente o relógio.
O café chegou. Conversa contida. Perguntas simples. Nenhuma invasão.
Até que o passado decidiu não respeitar limites.
- Lys?
A voz veio de trás. Grave. Familiar demais.
O corpo dela reagiu antes do rosto. Ombros rígidos. Respiração presa por um segundo - imperceptível para quase todos, mas não para Erick.
Ela virou devagar.
- Eu sabia que era você.
O homem se aproximou sorrindo, confiante demais. Mais alto que ela, postura de quem se sentia no direito de ocupar espaço.
- Quanto tempo... - ele disse. - Não esperava te ver aqui. Sozinha.
Erick permaneceu sentado, observando.
Esperando.
- Estou acompanhada - Lys respondeu, firme, sem olhar para ele.
O homem finalmente percebeu Erick. Avaliou-o dos pés à cabeça. O terno sob medida. A calma controlada. A diferença de presença era gritante.
- Desculpe - disse ele, forçando simpatia. - Sou Henrique.
Erick se levantou então. Devagar. A diferença de 1,80 contra 1,59 não era só física - era postura, domínio silencioso.
- Erick - respondeu. Nada mais.
Henrique voltou-se para Lys.
- Você sumiu - comentou. - Nunca respondeu minhas mensagens.
Ela sustentou o olhar.
- Porque algumas conversas terminam quando uma pessoa vai embora antes do que prometeu ficar.
O silêncio caiu pesado.
Erick entendeu ali.
Não os detalhes.
Mas o peso.
- Eu só queria saber se estava bem - insistiu Henrique.
- Agora sabe - Lys respondeu. - Estou.
Ela se levantou, o gesto encerrando qualquer continuação. Erick acompanhou o movimento imediatamente, sem perguntar, sem tocar.
- Vamos? - ele disse, olhando para ela, não para o outro homem.
Lys assentiu.
Enquanto se afastavam, Henrique ainda tentou:
- Você mudou, Lys.
Ela parou. Virou-se apenas o suficiente.
- Não - disse. - Eu aprendi.
E seguiu.
No corredor silencioso, ela respirou fundo. Erick caminhava ao lado dela, mantendo o ritmo - não à frente, não atrás.
- Obrigada - ela disse, sem olhá-lo.
- Não fiz nada.
- Fez - Lys respondeu. - Não tentou ser maior do que a situação.
Ele a encarou.
- Você não é alguém que precisa ser resgatada.
- Exato - ela disse, finalmente olhando para ele. - E é por isso que ainda estou aqui.
O relógio marcava vinte e oito minutos.
Erick sorriu de leve.
- Ainda temos dois.
- Use bem - ela respondeu.
E pela primeira vez desde que se conheceram,
Lys Cavalcante não se afastou imediatamente.