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A Magia do Natal
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A Magia do Natal

79 Capítulos
Concluído
Em A Magia do Natal, o cantor Leon busca refúgio no hotel de Isadora após um fracasso na carreira. Neste romance modern novel, uma conexão musical surge entre eles, mas um vídeo vazado ameaça tudo. Leia livros online grátis e descubra se a música pode restaurar a confiança perdida.
Capítulo 1 de A Magia do Natal

Isadora Monteiro

Naquela manhã eu acordei mais cedo do que o comum. O sol ainda mal havia aparecido por trás das montanhas e a cidade dormia em silêncio, envolta por uma névoa fina e pelas luzes piscantes que resistiam à madrugada.

Era dezembro - e em dezembro, tudo por aqui ganha uma espécie de brilho próprio. Até o ar parece mais doce.

Calcei meus tênis gastos, prendi o cabelo em um coque apressado e saí pelas ruas estreitas. Correr pela cidade logo cedo se tornou meu pequeno ritual, uma forma de agradecer pela vida simples que levo, e de lembrar o quanto amo esse lugar.

As casinhas coloridas, o cheiro de pão fresco vindo da padaria da Dona Zuleica, as guirlandas nas portas... cada detalhe parecia me abraçar.

O som do meu passo ecoava no calçamento molhado de orvalho, e eu respirava fundo, sentindo o aroma da terra úmida misturado ao perfume das flores que o Seu Ernesto insistia em cuidar, mesmo no frio. Ele sempre dizia que flores no inverno eram um sinal de esperança - e eu acreditava.

Passei pela pracinha central, onde a prefeitura já montava o grande pinheiro de Natal. Clara, minha melhor amiga, estava ali, enrolada num cachecol vermelho, dando ordens para dois rapazes que penduravam luzes douradas. Ela me viu e acenou, sorrindo como quem carrega energia de sobra mesmo antes das sete da manhã.

- Isaaaaa! - ela gritou, com aquela voz animada que parecia ecoar por toda a cidade. - Depois passa no coreto, precisamos de ajuda com os enfeites!

- Eu passo, prometo! - respondi, rindo.

Continuei a correr, mas dei uma última olhada pra ela. Clara Vasconcellos era assim mesmo: intensidade pura. Se o Natal fosse uma pessoa, seria ela.

Dobrei a esquina que levava ao rio e vi o reflexo das luzes nas águas calmas. Ali era meu ponto preferido. Eu parava, fechava os olhos e pensava em como minha vida, embora simples, era exatamente o que eu queria.

Às vezes me perguntava como seria morar em uma cidade grande, ou seguir carreira em algum lugar distante. Eu canto desde pequena, mas nunca imaginei que o mundo precisasse ouvir minha voz. Aqui, entre montanhas e sorrisos conhecidos, eu já me sentia suficiente.

Quando o sol finalmente rompeu o véu de neblina, voltei para casa. O Hotel Monteiro, onde moro e trabalho com meus pais, ficava no alto da colina, cercado por pinheiros e com vista para toda a cidade. O prédio é antigo, de madeira clara e varandas floridas. Um lugar que mais parece ter saído de um cartão-postal.

Assim que entrei, o cheiro de canela me envolveu.

Mamãe estava na cozinha, preparando os biscoitos natalinos que os hóspedes tanto amavam. Helena Monteiro tem mãos de fada e o dom de fazer qualquer um se sentir em casa.

- Bom dia, meu amor - ela disse, sem olhar pra mim, ocupada demais decorando as forminhas. - Dormiu bem?

- Dormi. Só acordei cedo pra correr. A cidade está linda, mãe. Clara está terminando os preparativos da praça.

Ela sorriu, e eu percebi o cansaço em seus olhos. A época do Natal era a mais movimentada do ano no hotel, e ela se desdobrava entre a cozinha, as reservas e as decorações.

- Seu pai já foi buscar lenha - avisou. - Disse que vai consertar a lareira antes da noite.

Papai. Francisco Monteiro - ou Chico, como todo mundo chama. O homem mais gentil que eu conheço. Brinca com as crianças, conversa com os hóspedes como se fossem velhos amigos e sempre tem uma história nova pra contar.

Enquanto colocava a mesa para o café, ouvi o barulho do carro dele chegando. Ele entrou pela porta dos fundos, batendo as botas na soleira e trazendo o cheiro da manhã junto com ele.

- Bom dia, minhas meninas! - disse, tirando o gorro e me dando um beijo na testa. - Trouxe lenha boa e seca. Hoje à noite o fogo vai cantar bonito.

- Cantar bonito? - brinquei. - Quem canta bonito aqui sou eu, pai.

Ele riu, e mamãe balançou a cabeça, fingindo reprovação.

- Isadora, você devia cantar mais. - disse ele, sério por um instante. - A cidade toda se encanta quando ouve sua voz.

- Eu canto só pra mim - respondi, desviando o olhar. - E pro Natal, talvez.

Cantar em público ainda me deixava nervosa, mesmo depois de tantos anos ajudando no coral da igreja. Mas papai sempre insistia que a música era um dom, e que dom guardado perdia o brilho.

Depois do café, fui para a recepção do hotel. Gosto de observar as reservas, organizar as chaves, sentir o cheiro do pinheiro enfeitado no saguão. Ali, cada detalhe tem história: o carpete gasto pelas malas de viajantes, o sino dourado que papai trouxe de uma feira antiga, e as fotos nas paredes, com registros de famílias que passaram o Natal conosco ao longo dos anos.

O telefone tocou.

- Hotel Monteiro, bom dia! - atendi, animada.

Era Dona Zuleica, da padaria.

- Isadora, querida! Manda o Chico passar aqui, tenho pão de mel fresquinho e preciso devolver a travessa da sua mãe!

Sorri.

- Pode deixar, Dona Zuleica. E guarde uns pra mim, tá?

Ela riu do outro lado da linha.

- Se sobrar, guardo!

Desliguei e, por um instante, fiquei olhando a neve começar a cair lá fora - os primeiros flocos da temporada. A cidade parecia coberta por um véu de magia. As crianças corriam na praça, o padre Antônio acenava da igreja, e o sino do relógio do Seu Ernesto marcava as oito horas.

Peguei meu casaco e fui até a varanda, onde papai ajeitava uma estrela dourada no topo do pinheiro do hotel. Ele sempre fazia isso com um orgulho quase infantil.

- Fica bonita, né, filha? - perguntou.

- Fica perfeita, pai. - respondi. - Como todos os Natais daqui.

E realmente era.

Nosso Natal sempre foi simples, mas cheio de alma. Havia música, comida boa e amor. Havia também pequenas tradições: Clara vinha cantar comigo na igreja, mamãe fazia chocolate quente pra todo mundo, e o hotel se enchia de gente de lugares diferentes, cada um com uma história para contar.

Olhei para a estrada que cortava a montanha e pensei em como o mundo lá fora devia estar tão diferente, tão rápido, tão barulhento. Aqui, o tempo parecia andar devagar, respeitando o ritmo do coração.

Não sabia que, naquela mesma estrada, o destino estava prestes a mudar o rumo dos meus dias.

Mas naquela manhã, tudo ainda era paz.

---

Mais tarde, fui até a praça ajudar Clara com os preparativos. Ela estava empolgada como sempre.

- Isa! Você precisa ver como está ficando o coreto! - disse, puxando minha mão. - Vai ser o ponto principal da celebração!

O coreto estava adornado com fitas vermelhas, pinhas douradas e luzes brancas. Parecia saído de um sonho. A prefeita Marlene supervisionava tudo com seu bloquinho em mãos, resmungando sobre prazos, mas com um brilho no olhar que denunciava o quanto amava aquilo.

- Bom dia, Isadora - disse ela, anotando algo. - Sua mãe vai preparar o buffet da festa, certo?

- Sim, prefeita. Já está tudo encaminhado.

- Ótimo. - Ela sorriu. - E você, minha querida, vai cantar de novo este ano, não vai?

Senti o coração acelerar.

- Ainda não sei...

Clara revirou os olhos.

- Claro que vai! Ela só está fazendo charme.

A prefeita riu, satisfeita, e seguiu para outro grupo. Fiquei olhando Clara, que cruzou os braços e me encarou com aquele olhar de quem não aceita desculpas.

- Isa, você nasceu pra isso. O coral sem você não é o mesmo.

Suspirei, olhando as luzes piscarem.

- Eu só... não sei se tenho coragem.

Ela colocou a mão no meu ombro.

- Você tem mais do que coragem. Tem coração. E é isso que a cidade ama.

Clara sempre soube o que dizer.

Voltamos a trabalhar nos enfeites, e o dia passou rápido. O sol se pôs tingindo o céu de dourado, e a cidade inteira parecia respirar o mesmo ar de expectativa. Faltavam apenas duas semanas para o Natal.

Quando voltei ao hotel, os primeiros hóspedes começavam a chegar. Um casal de idosos, uma família com crianças... rostos conhecidos, histórias antigas.

Cumprimentei cada um com um sorriso, sentindo a alegria familiar daquela época.

Mas, antes de fechar a porta, avistei algo diferente.

Um carro escuro subindo a colina, lentamente, como se o motorista não soubesse exatamente pra onde estava indo.

O farol cortou o véu da neve, e por um instante, um arrepio me percorreu.

Não sei explicar, mas senti que havia algo diferente naquela chegada.

Talvez fosse apenas a sensação de que algo estava prestes a mudar.

Talvez fosse o próprio destino, soprando entre as luzes do Natal.

Naquela noite, enquanto fechava as janelas e o vento sussurrava lá fora, eu ainda não sabia que o hóspede que estava prestes a entrar no Hotel Monteiro traria mais do que bagagem.

Trazia silêncio, segredos...

E uma melodia que, sem saber, estava prestes a mudar a minha vida para sempre.

{...}

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